Pela defesa do património público e da habitação a valores acessíveis à população de Alvalade
Resultado da votação
Moção
Pela defesa do património público e da habitação a valores acessíveis à população de Alvalade
O Governo decidiu, por resolução do Conselho de Ministros, proceder à alienação de dezasseis imóveis pertencentes ao Estado e à ESTAMO – Participações Imobiliárias, S. A., a concretizar por hasta pública até ao final do primeiro trimestre de 2026. Outra resolução cria um mecanismo de parcerias público-privadas, denominado “Parcerias para o Arrendamento Acessível”, destinado à concessão, por prazos alargados, de catorze imóveis públicos para projetos de arrendamento, a maioria localizada na Área Metropolitana de Lisboa.
Posteriormente, o governo apresentou várias propostas de alteração legislativa no âmbito da habitação, entre as quais se inclui o programa de rendas moderadas, atualmente em apreciação na Assembleia da República. Contudo este programa estabelece limites máximos de renda e venda de imóveis demasiado elevados, ficando longe de garantir rendas compatíveis com os rendimentos da maioria das famílias e podendo, inclusivamente, contribuir para a contínua subida dos valores praticados.
Estas medidas são apresentadas como resposta à crise da habitação mas, em vez de criar um parque público robusto com rendas acessíveis ao rendimento dos agregados, o Governo opta por uma estratégia de alienação de património público de utilização habitacional com elevado valor patrimonial e localização central, com o objetivo de gerar receitas extraordinárias orçamentais, apresentadas como financiamento indireto das políticas de habitação. O Relatório do Conselho das Finanças Públicas sobre o Orçamento do Estado para 2026 alerta que estas operações são tratadas como medidas pontuais e sem detalhe suficiente, o que levanta sérias dúvidas quanto à previsibilidade e sustentabilidade orçamental e quanto ao impacto na capacidade do Estado em responder à crise da habitação.
Em Lisboa, esta estratégia traduz-se na colocação no mercado de vários edifícios antes ocupados por ministérios e serviços públicos, incluindo imóveis que poderiam ser mobilizados para habitação a valores acessíveis, residências universitárias ou equipamentos coletivos. Relembramos os vários imóveis da Segurança Social adquiridos pela Câmara Municipal de Lisboa e convertidos para 250 fogos de habitação de renda acessível e residências universitárias, concretizando um investimento relevante para aumentar o parque público de habitação da cidade.
No caso concreto da freguesia de Alvalade, a Resolução do Conselho de Ministros torna claro que o edifício da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) na Praça de Alvalade, 12, 13, em Lisboa, propriedade do Estado, integra a lista dos imóveis a alienar. Trata-se de um edifício público inserido numa zona estratégica da freguesia com forte valor simbólico e muito boas acessibilidades de transporte, serviços e comércio, onde há muito se reclama uma intervenção pública que combine habitação acessível, residências universitárias ou equipamentos coletivos ao serviço da população da freguesia.
A alienação deste edifício significa uma perda de controlo efetivo sobre o seu uso social e uma oportunidade perdida para criar um verdadeiro projecto de arrendamento a preços acessíveis sob gestão do município, à imagem do que foi feito nos edifícios da Segurança Social. Mesmo que se destine a arrendamento acessível de promoção privada, persistem, além disso, dúvidas fundamentais sobre o nível das rendas, os critérios de acesso para famílias com rendimentos baixos e médios, a duração do regime e os mecanismos de transparência e participação da população da freguesia na definição do projeto, num contexto em que milhares de famílias enfrentam sérias dificuldades para aceder a uma habitação digna.
A conjugação entre a venda de imóveis públicos em Lisboa e a concessão de terrenos estratégicos, reforça a necessidade de transparência total sobre os imóveis a integrar estes processos, os modelos de financiamento, as contrapartidas exigidas aos privados e os impactos no território da freguesia. Torna-se igualmente indispensável garantir que qualquer intervenção naquele edifício tenha como prioridade a satisfação das necessidades habitacionais e de equipamentos da população de Alvalade, e não apenas contribuir para o Orçamento do Estado ou a valorização imobiliária para a especulação ou o turismo.
Na passada segunda-feira, 15 de Dezembro de 2025, na cerimónia de entrega de 152 fogos em regime de habitação acessível com a presença do ministro das Infraestruturas e Habitação Miguel Pinto Luz, “o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, já pediu ao Governo para serem transferidos para a autarquia alguns edifícios como o antigo edifício do Conselho de Ministros, que está previsto de ser alienado em hasta pública e que poderá ou não ser usado para habitação. O Presidente da CML quer usar aquele tipo de edifícios para habitação pública, nomeadamente para os jovens.”
Por estas razões, a Assembleia de Freguesia de Alvalade deve solicitar informação detalhada sobre os planos para o edifício da DGEstE, na Praça de Alvalade, 12, 13, deve pronunciar‑se de forma firme contra a alienação deste edifício, apelar à sua atribuição à Câmara Municipal de Lisboa de forma a aumentar o parque público de habitação a custos controlados e a valores acessíveis na freguesia - defendendo assim que qualquer projeto ali desenvolvido respeite o interesse público local, garantindo habitação verdadeiramente acessível ou residência pública universitária e equipamentos comunitários para quem vive e trabalha na freguesia.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais aplicáveis, o LIVRE propõe à Assembleia de Freguesia de Alvalade, reunida a 17 de Dezembro de 2025, que delibere:
- Manifestar o seu desacordo com a política de alienação de imóveis públicos levada a cabo pelo Governo, solicitando a suspensão de quaisquer operações de venda ou concessão que envolvam património localizado em Lisboa e, em particular, na freguesia de Alvalade.
- Solicitar ao Governo informação detalhada sobre os planos para o edifício da Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) na Praça de Alvalade, 12, 13, localizado na freguesia de Alvalade.
- Pronunciar-se contra a alienação do edifício da DGEstE na Praça de Alvalade, 12, 13, e apelar à negociação pela Câmara Municipal de Lisboa para a transferência da propriedade deste edifício para a autarquia, por forma a aumentar o parque público de habitação a custos controlados e a preços acessíveis ao rendimento da população da freguesia.
- Reafirmar a importância do edifício da DGEstE na Praça de Alvalade como de especial importância para a freguesia, que importa requalificar e reconverter, devendo qualquer projeto ali desenvolvido respeitar o interesse público local, garantindo habitação pública a custos controlados e a valores acessíveis ou residência pública universitária e equipamentos comunitários para quem vive e trabalha na freguesia.
- Enviar a presente moção ao Primeiro-Ministro, ao Ministro das Infraestruturas e Habitação, ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, à Assembleia Municipal de Lisboa e às forças políticas representadas na Assembleia da República.
- Enviar a presente Moção à Rede H; Associação de Inquilinos Lisbonenses; Habita! – Associação pelo direito à habitação e à cidade; 1º Esquerdo; Porta a Porta; Stop despejos; Movimento Morar em Lisboa; APPA - Associação do Património e da População de Alfama; Associação Renovar a Mouraria; Movimento Referendo pela Habitação; Plataforma Casa para Viver e as todas as associações e grupos de moradores da Freguesia de Alvalade.
Alvalade, 17 de Dezembro de 2025
O eleito do LIVRE na Assembleia de Freguesia de Alvalade
Francisco Costa
Francisco Costa